segunda-feira, 9 de junho de 2008

Tesourinhos Fascinantes - As Cassetes

Regresso ao Eldorado - Edição nº 40

Quem é que nunca gravou uma selecção de temas daqueles bem pirosos e peganhentos para conquistar uma miúda?
Possivelmente muitas das senhoras que estão a ler isto, mas, mesmo elas, não terão deixado de compilar os seus temas preferidos numa boa fita magnética.
Porque já houve um tempo em que era bom compilar e uma miúda cool era uma miúda que compilava. Hoje, uma miúda que compila é difícil de encontrar.
Foi por isso que o Ronaldo, do Brasil, foi ter com travestis.

Havia cassetes de ferro (duras para caramba), de crómio, de metal, ou até as que abafavam o ruído, o que foi importante para quem como eu foi ao ponto de usar um gravador de cassetes para gravar músicas da televisão, captando a campainha lá de casa, os carros a passar, ou até a buzina do padeiro.

Mas era da rádio que gravávamos a maior parte das músicas que compunham as nossas cassetes que eram depois catalogadas com requinte. Os mais organizadinhos, como eu, numeravam a lombada e até se atreviam a desenhar as capas.
A que desenhei para o "Thriller" de Michael Jackson estava ao nível daquilo que o meu sobrinho faz hoje na Escola Primária.
Mas eram os "Especiais Anos 80" que eu adorava gravar e etiquetar. Ainda estão lá para casa, numa improvisada prateleira no topo do armário onde estão guardadas as revistas de Walt Disney.

Na era dos downloads e música portátil em i-pods catitas, estou um passo atrás, usando e abusando dos cd´s que mataram as cassetes.
E não era muito complicado matar uma cassete.
Bastava agarrar-lhe na tripa magnética e esventrá-la com requintes de malvadez. Era um óptimo momento anti-stress desde que a cassete não fosse nossa, claro.

O pior era quando as caixinhas de música cometiam suicídio nas cabeças de leitura e gravação. Cheguei a ouvir com enlevo o Rod Stewart numa dessas situações e achar que o tipo, quando queria, ainda aprumava mais a rouquidão da sua voz, mas não, era uma cassete a ser engolida por uma aparelhagem com saudades de pôr gira-discos a tocar.
Era quando se arrancava a fita que arrancávamos os cabelos e isso aconteceu-me muitas vezes.
Havia quem preferisse mandar as fitas para a rua, proporcionando belos efeitos de Carnaval tóxico, graças às serpentinas magnéticas que se viam aqui e ali.
info:A cassete foi inventada pela Philips e lançada oficialmente em 1963, sendo substituída gradualmente pelos cd´s ao longo dos anos 90. Tratava-se de uma fita magnética que passava por dois carretéis, sendo o mecanismo alojado numa caixa plástica usalmente com medidas 10cm X 7cm.
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Sendo um homem da rádio, as cassetes tornaram-se também instrumentos de trabalho, na altura em que se gravavam rm's com as declarações dos entrevistados. Os rm's eram os registos magnéticos gravados, nos tempos da Rádio Voz, nas cassetes promocionais das Selecções do Reader's Digest onde António Sala anunciava "Sucessos Românticos".
O dedo mindinho aqui do JP, mais pequeno que uma pevide de abóbora, era o suficiente para alinhar a fita.

Como é que se fazia?
Colocava-se o dedo mindinho na bobine que tinha menos fita e rodava-se aquela pequena traquitana até deixar o início da fita a meio da superfície de leitura.
Foram os tempos aúreos do dedo mindinho.
Hoje dominam o dedo do meio esticado para gente que nos azucrina a paciência nas estradas e o polegar, o preferido das gerações mais jovens para jogar, enviar sms's ou pedir boleia.

Havia também, claro, as cassetes vídeo, esses enormes matrafolhos parecidos com tijolos e o maravilhoso walkman que possibilitou levar as cassetes para os nossos joggings, para os nossos passeios de bicicleta e até para os dias de teste na secundária.
Mas sobre estas velharias escreverei num outro dia.

Com o duplo deck da aparelhagem knockout e o auto-rádio do carro, idem, resta-me olhar para as velhas cassetes enfileiradas como se fossem guerreiros de terracota de outras batalhas.
No tears, no fears: the show must go on.

Quarta-feira há nova viagem na máquina do tempo.
Venha comigo assassinar saudades.

3 comentários:

a casa da mariquinhas disse...

Olá, João Paulo
É sempre um prazer vir aqui passar uns minutinhos - a falta de tempo não dá para mais...
Deliciei-me com esta leitura!
Também eu tenho "montes" de cassetes gravadas, guardadas nem sei para quê...
Com tantas modernices quem é que ouve cassetes???
Há filmes de ficção que mostram o mundo actual totalmente destruído e o consequente regresso às origens. Quem sabe? nessa altura ainda podem vir a ser úteis!
Até sempre.
Beijos
Mariazita

João Paulo Cardoso disse...

Maria:
As cassetes são já uma relíquia e não faltará muito para o serem também os automóveis.

A propósito... tem por aí um bidãozinho de gasolina que me empreste?

Beijos.

Sofia K. disse...

Oh, mesmo eu que ainda sou uma jovem (LOL) me lembro delas e recebi algumas, com corações na capa. Gravava tantas músicas da rádio. A raiva que me dava quando se estropiavam, quando a fita saía e ficava toda estragada, mas às vezes ainda dava para enrolar bem enroladinha com a ajuda de uma Bic. Ou saudades...

beijos